sábado, 16 de fevereiro de 2013

O sertão


RELATÓRIO DE VIAGEM: VISITA AO SERTÃO COM A TEMÁTICA “ RELIGIOSIDADE, MITOS E REPRESENTAÇÕES SERTANEJAS” NAS CIDADES DE NOSSA SENHORA DAS DORES, NOSSA SENHORA DA GLÓRIA, MONTE ALEGRE E POÇO REDONDO.


Célia de Oliveira Andrade
Graduanda em História pela Universidade Federal de Sergipe/UFS

O departamento de História da Universidade Federal de Sergipe (UFS) sob organização do professor Antônio Lindvaldo Sousa realizou uma viagem ao sertão no período de 26 a 27 de fevereiro de 2013, com a turma de Sergipe II na qual tivemos a oportunidade de integrar-se alguns participantes do IV projeto de História de Sergipe para a terceira Idade, outra professora do departamento Maria Nely Santos e um grupo de monitores. Contando também com a presença do cantor Ygo Araújo Ferro.

(Turma de Sergipe II)

 O objetivo deste evento científico foi chamado de II Ciclo de Estudos: “O Sertão tem Histórias” fora visitar cidades do nordeste brasileiro, sendo elas: Nossa Senhora das Dores, Nossa Senhora da Glória, Monte Alegre e Poço Redondo. Cidades essas que foram exploradas sob a temática “Religiosidade, Mitos e Representações Sertanejas”.

(Mapa das cidades onde estivermos circuladas de amarelo)

Primeiro dia da viagem:

           A viagem teve início na manhã do dia 26 de fevereiro de 2013 às 06 horas e trinta minutos, saindo do posto de gasolina na frente da rodoviária nova na cidade de Aracaju. Nossa primeira parada ocorreu em Nossa Senhora das Dores no Restaurante Rota do Cangaço para tomarmos café. Em seguida, visitamos a igreja da mesma onde tivemos a oportunidade de observar sua estrutura e características que a ligam a pedagogia do medo (Vaticano I).




(Eu, Airles Almeida, Cleane Andrade e o proprietário do restaurante Rota do Cangaço/ Igreja de Nossa Senhora das Dores)


           A abertura do evento se concretizou com a aula pública, ainda em Dores, sobre os penitentes e a apresentação demonstrativa dessa religiosidade com alguns integrantes desse grupo que tradicionalmente saem na semana santa. Para falar sobre os penitentes, estava presente a professora de História Magneide (Graduada em História pelo PQD – Projeto de Qualificação dos Docentes) que teve esse assunto como tema de sua monografia em 2002. Ela falou do surgimento que é de origem europeia recebendo este nome em Nossa Senhora das Dores, da recusa da igreja até aderir juntamente com a mentalidade da população local, como ocorre na semana santa, sobre seus participantes em que alguns escondem seus rostos e outros não e que atualmente são mais de 700 integrantes.

                                                                          ( Prof. Magneide)

           Logo mais, ocorrera uma pequena demonstração de alguns integrantes do grupo dos Penitentes na qual pudemos observar detalhes de suas vestes brancas, seus cânticos, instrumentos, gestos e objetos utilizados.

(Demonstração dos Penitentes)

Nessa mesma ocasião, o professor João Paulo Araújo Carvalho, formado em História pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), traz em sua fala a história da Igreja Católica neste município sua chegada, principais responsáveis, as mudanças ocorridas em sua estrutura física e estilo. E as quatro procissões que ocorrem na sexta-feira da paixão na semana santa, são elas: Cruzeiro do Século, Madeiro, Senhor Morto e Penitentes. Para melhor entendimento sobre como ocorrem essas procissões foi exibido um vídeo das mesmas na cidade. 


Prof. João Paulo

          Com o término da aula pública, seguimos para o restaurante Rota do Cangaço para almoçarmos. Em seguida, fomos para a próxima cidade a ser visitada Nossa Senhora da Glória. A chegada ocorreu a tarde onde cada procurou se acomodar em alojamentos, pousadas, hotéis ou em casa de amigos, parentes ou conhecidos. Ou seja, onde lhes convinha.
         À noite, nos reunimos para a realização da Conferência: “O Sertão tem Histórias”. Iniciada às 20h20 pelo professor Antônio Lindvaldo que abordou em sua fala o mito sobre o Lobisomem João Valentim e o seu pertencimento a cultura sertaneja.

                                                                                Prof. Antonio Lindvaldo

          João Valentim era um vaqueiro que por assumir características físicas de sua profissão o atribuem a um lobisomem. Ser que segundo a lenda trazida de Portugal durante o período colonial ao Brasil seria um homem que fora mordido por um cão durante a lua cheia e outra vertente que conta ser o sétimo filho que não foi batizado pelo irmão mais velho. O que se sabe sobre esta figura é que nascera em Aquidabã, havendo documentos que o expõem como nascido em Capela.
         João Valetim tornou-se um mito pelos diversos relatos de seus aparecimentos contados por populares que diziam vê-lo transformado em animais, principalmente cachorro e gato. Residiu em Nossa Senhora das Dores, Feira Nova e Monte Alegre. Tendo aparições em Nossa Senhora da Glória. Faleceu em Aracaju de ataque cardíaco. Morrendo fisicamente e mais tarde no imaginário.  Relatos de populares o trazem também como curandeiro.
        Na mesma noite, o professor Uilder Celestino que sem sua participação mostra a arte de “Veio” que retrata a cultura do sertão com artes feitas com madeiras.

      Prof. Uldier Selestino

      Logo após, tivemos atividades culturais e a confraternização através do Sarau iniciado com a apresentação do cantor Ygo Araujo juntamente com um colega da turma Madson Santos que trouxeram o contexto do sertão sob o arranjo da voz e de um violão. Na mesma noite, tivemos a presença de aboiadores os quais pudemos observar a agilidade, a inteligência e o jogo rápido de versos entre eles.  E depois o típico forro pé de serra. Havendo interação dos alunos.


         Cantor Ygo Araujo/Madson Santos                                                                            Aboiadores 



     Trio Pé de Serra


Segundo Dia da Viagem:

        Iniciamos a visitação no dia 27 pela manhã, tivemos a oportunidade de conhecer a cidade do lobisomem João Valentim, a chamada Monte Alegre. Nela fomos recepcionados pelo professor Cícero que nos acompanhou em todo o nosso trajeto pela cidade. Contou-nos fatos acontecidos sobre João Valentim. Levou-nos a casa do professor Eloi que fora amigo do lobisomem e contou-nos até um fato acontecido entre ambos. 

Prof. Cícero                                          Prof. Eloi

                                          
             Depois fomos à casa que atualmente pertence ao senhor Brió que fora vizinho de João Valentim. Este retrata o lobisomem humilde, pequeno, trabalhador e possuidor de uma família grande que conheceu nos seus dezesseis anos. Da casa onde supostamente morou João Valentim, fomos ao cemitério da cidade para ver a sepultura do lobisomem mau.

           Brió ( Boné verde)                                            Cemitério de Monte Alegre

           Do cemitério partimos para a cidade de Poço Redondo, mais precisamente no povoado Sítios Novos onde almoçamos e logo após fomos ver uma das representações do sertão “A Cavalhada”.
          Ao chegarmos, nos reunimos numa capela chamada “Cruz do Homem” que segundo o senhor Genovitor um dos integrantes do grupo de tocadores de pífanos a capela foi construída em 1960 no local onde havia uma árvore chamada Braúna em homenagem a um homem assassinado pelo motivo de negociar com ouro. Então, pela morte de um inocente construíram a capela. Hoje ela é preservada por uma senhora com apoio de outros, muitas são as promessas feitas é o que relata o senhor Genovitor. 

    Senhor Genovitor                                                         Banda de Pífano

          O mesmo nos explica a diferença entre aboios e entoadas e junto com os outros integrantes do grupo iniciam apresentação da Cavalhada. Esta é uma representação sertaneja de origem portuguesa que traz em seu contexto a luta entre cristãos e mouros. Sendo composta por doze cavalheiros que se dividem em dois grupos: Azul e Encarnado. Tivemos a oportunidade de observar a participação da população, principalmente das mulheres na torcida, os trajes dos cavalheiros e a decoração dos cavalos.

         Apresentação da Cavalhada

        A cavalhada consiste numa disputa entre os grupos já citados, onde cada cavalheiro corre em sequência para tirar com sua lança uma argola que se tirada é oferecida ao expectador que lhe dará um agrado por ser o escolhido. A disputa acaba após cinco corrida de cada integrante e ganha aquele que tiver tirado mais argola.

                                                                          Cenas da Cavalhada 

         Deve-se ressaltar que antes da disputa os cavalheiros se apresentam em dupla em seus cavalos em frente à capela onde estão os tocadores de pífanos pedindo o santo. Logo após dirigem-se ao local onde ocorre a apresentação.

                                                                          Apresentação final 

           No final, os cavalheiros se apresentam como no início aos tocadores de pífanos na frente da capela, dançam e exaltam vivas. Enfim, esse ritual cívico religioso acontece anualmente nos dias 3 e 4 de maio, mostrando a cultura brasileira sob herança da Idade Média.
No término, seguimos para nossos ônibus para voltarmos as nossas residências.

        Turma de Sergipe II


Considerações finais:

        A viagem técnica ao sertão, sob o tema “Religiosidade, Mitos e Representações Sertanejas” se concretizou em visitas, aulas públicas, relatos de populares e musicalidades que se mostraram de grande importância para complementar nosso conhecimento sobre o sertão e trouxe-nos também novidades.
       Proporcionou a nós alunos o contato com diversas formas culturais existentes no interior do nosso Brasil. Desde a Religiosidade expressa em Nossa Senhora das Dores com a história da sua igreja e de suas procissões realizadas durante a semana santa, e a apresentação dos Penitentes. Ao Mito do homem que vira lobisomem em Nossa Senhora da Glória e Monte Alegre. Valorizando a história oral destas comunidades. E por fim uma das Representações Sertanejas com a cavalhada em Sítios Novos - Poço Redondo.
        Ademais, tivemos a oportunidade de estar em contato com a nossa cultura, participando dela e dando-lhe incentivo. Percebemos o quanto somos ricos em demonstrações populares e o quanto o sertão tem a nos mostrar. Não somente a seca e a pobreza, mas valores culturais que se deixarmos será esquecido.